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Estoicismo Moderno: A Cura para a Fragilidade ou uma Armadilha Disfarçada?




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Se por um lado devemos desenvolver a capacidade de lutar no teatro duro da vida, desenvolvendo a capacidade de agir determinadamente de forma produtiva, por outro é essencial que saibamos acolher os gritos e choros do nosso inconsciente, que se traduzem também na capacidade de criar laços com as outras pessoas e, assim sim, nos humanizando de forma mais completa.

João Maia 30/06/23

Ressurgimento do Estoicismo

Nas sociedades ocidentais, a corrente filosófica estoica tem ressurgido com força na última década. Vários autores, pensadores, atletas e empreendedores, entre outras figuras eminentes, têm referido o impacto positivo que esta filosofia teve nas suas vidas e no seu desempenho profissional. No seu âmago, o estoicismo veicula um ideal de soberania pessoal e psicológica, onde a figura do sábio estoico se mantém imperturbável perante os acontecimentos externos, sejam eles potencialmente positivos ou negativos. Tal como refere Nassim Taleb no seu livro “Antifrágil - Coisas que beneficiam da desordem”, a filosofia estoica (em particular a perspetiva Senequiana) propõe uma atitude que ainda vai além da imperturbabilidade, onde a pessoa pode usufruir de todos os benefícios da Fortuna/Destino/Sorte, sem sofrer de nenhuma desvantagem. Uma vez que para o estoicismo, todo o obstáculo não passa de uma provação à virtude do sábio, nada há então de realmente negativo a não ser a falta de fortificação do caráter, a rejeição de virtude, ou seja, a indulgência perante o vício (todo o comportamento que não seja em função do Logos). Para os estoicos o Logos ia para lá do nosso conceito atual de lógica, não sendo algo puramente matemático e hiper-racional, mas em parte era visto como um Sentido ou código ético invisível inerente à natureza humana que tendia para o bem.


O ser humano necessita, portanto, de colocar em prática esse mesmo código para que se possa, por assim dizer, se humanizar. Fazendo uma analogia, ao olharmos para um assassino em série quase que automaticamente questionamo-nos se tal pessoa ainda tem algum resquício de humanidade dentro de si. Já o sábio estoico seria a figura diametralmente oposta. Alguém tão forjado pela constante batalha entre a vida e a sua estrutura psicológica, que se tornara uma figura que - parafraseando Séneca - se igualaria aos deuses. Ora, se a volatilidade, o caos, o imprevisto e até as tormentas que a vida nos pode trazer, constituírem um catalisador da nossa humanidade, tornámo-nos antifrágeis. No fundo, crescemos e desenvolvemo-nos a cada pancada que a vida nos desfere. Pelo contrário, na cultura ocidental atual, o psicólogo norte-americano Jonathan Haidt defende que existe uma preponderância e propagação duma atitude em que a pessoa é vista como uma vítima, constante refém daquilo que sente, predispondo-a a ver a vida como uma guerra entre bons e maus. Esta é, portanto, uma concetualização fragilista, onde o ser humano teria uma espécie de quantidade de golpes que seria capaz de aguentar por parte da vida. Passe-se esse limiar e o sujeito “estoira”.


Metaforicamente, esta atitude é aquela incorporada pela personagem do vilão Joker da DC Comics, particularmente presente na interpretação de Joaquin Phoenix, como no clássico da banda desenhada “The Killing Joke”. Em ambas as versões, o personagem “quebra” perante as tareias (simbólicas e concretas) que sofre, rendendo-se assim à loucura. É interessante ver também como no filme a ausência de capacidade de regular as suas emoções (mesmo as agradáveis) se revela claramente como um enorme problema. Quando Arthur Fleck começa a rir, fica completamente incapaz de se conter, transformando-se o riso em dor devido a tal descontrolo. Vemos então, não apenas o sofrimento agonizante interno espelhado no seu rosto desesperado, como os rostos desconfortáveis das pessoas em seu redor, que exibem um grande constrangimento ao assistir à situação. Esta desregulação emocional parece emergir em grande parte da parentalidade helicóptero abordado por Haidt, onde o terror sentido por parte dos pais de que algo de mau possa acontecer ao seu filho, leva-os a viver num constante estado de ansiedade que os faz “sobrevoar” as “crias” para que possam intervir à mínima dificuldade ou contrariedade, impedindo a criança de desenvolver a sua autonomia e capacidade de lidar com as adversidades. Isto gera uma relação de dependência também espelhada no filme, na relação edípica que Fleck estabelece com a sua mãe.

Por fim, no filme, o aspeto da luta entre “bons e maus” torna-se explicitada através da personagem de Thomas Wayne (pai de Bruce Wayne), uma figura aristocrática que é retratada como um ícone do pedantismo e arrogância que se amalgamam e confundem com o facto de pertencer à elite. No final, todas estas dinâmicas relacionais, sociais e intrapsíquicas levam a motins e assassinatos, onde as supostas vítimas da sociedade se tornam os agressores e os supostos opressores, vítimas, mostrando que afinal, o mal não está em nenhuma classe em particular, mas sim dentro do coração de cada pessoa. Contudo, a genialidade do filme faz-nos simpatizar e compadecer com a personagem de Arthur Fleck/Joker, levando-nos no mínimo a compreender visceralmente as razões do seu modus operandi, e no máximo, justificando-o e validando-o. Penso que o filme pretende precisamente mostrar-nos quão facilmente podemos cair neste engodo fragilista de nos identificarmos em excesso com o que sentimos e entrarmos numa dinâmica de projeção da maldade em cima do Outro. Deste modo o estoicismo acaba por nos propor um antídoto a tal narrativa.


Se o Joker é a personagem que representa uma perspetiva fragilista do ser humano, quem poderá então fazer o seu paralelo oposto? Naturalmente a personagem de Bruce Wayne/ Batman. No fundo ele representa o contraponto estoico antifragilista. Numa frase: “Mata-me os meus pais e eu torno-me num herói!”. Neste sentido, o estoicismo tem em si o potencial de curar a pessoa da tirania fragilista prevalente.


Eu próprio devorei livros dos estoicos e senti na pele um enorme crescimento pessoal através dos princípios por eles propostos. Durante bastante tempo os meus amigos mais próximos devem-se ter fartado de me ouvir a citar os estoicos, de tão apaixonado que estava por livros tais como “Cartas a Lucílio”. Contudo, com os anos também me apercebi que o que pode determinar a diferença entre um medicamento e um veneno é a dosagem. Com isto quero dizer que o ser humano (em particular a versão contemporânea) tem a tendência em absolutizar ou endeusar algo que percecione como sendo benéfico, e ver o estoicismo como alimento em vez de medicamento pode trazer, na minha opinião, sérios problemas.


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O estoicismo é uma filosofia, não uma ideologia, que ao ser precisamente tão cativante, nos pode deixar cegamente enamorados por si, incapazes de ver os seus potenciais vieses. Dou o exemplo em que Séneca (o meu filósofo estoico favorito) refere que a raiva deve ser repudiada por completo, referindo que não pode ajudar em nada. Em cima referi que entregarmo-nos às emoções deixando que reinem e dirijam a nossa vida não é uma boa estratégia. Por outro lado, discordo de Séneca, ao assumir que uma emoção intensa como a raiva tem um significado a priori negativo e que é completamente descartável. Concordo que é uma emoção potencialmente destrutiva, mas também o é o afeto amoroso duma mãe quando se traduz num excesso hiperprotetor que destrói as capacidades dum filho de crescer e se desenvolver, apesar destes dois exemplos atuarem com mecanismos bem distintos. Como diz o ditado, “de boas intenções está o inferno cheio”. Sublinho o termo a priori, na atribuição de uma conotação inerentemente negativa (ou positiva) a uma emoção, neste exemplo específico, como a raiva. As emoções humanas são fenómenos extremamente complexos e o contexto em que as mesmas surgem e se expressam faz toda a diferença no seu significado e inclusivamente, valência moral. Por exemplo, o etólogo Konrad Lorenz observou que a agressão dum animal perante um inimigo/predador é proporcional à proximidade do primeiro para com os membros da sua família. Quanto mais próximo desta, maior é a agressividade do animal contra o “intruso”.


Este exemplo bem à la National Geographic, poderia ser complementado com outro bem mais intrapsiquicamente subjetivo: imagine um jovem que vai a passear na rua e vê por si passar um carro caríssimo e aos seus olhos, deslumbrante. Sentindo que existe um fosso insuperável entre o seu estado atual (adolescente, sem dinheiro, que vive em casa dos pais) e o que necessitaria para ter um carro como aquele e tudo aquilo que para si tal objeto pode representar (desde estatuto social a liberdade financeira), o sentimento estético de beleza transforma-se em ressentimento, raiva. Entretanto ele até se esquece daquilo, mas passado uns meses adota fervorosamente (para não dizer religiosamente) uma ideologia marxista e começa a defender que a “burguesia” deve ser destronada, sendo a classe opressora e ele um oprimido. Num multiverso alternativo, esse jovem conectou-se com o sentimento inerente à sua frustração, sentiu-a sem colapsar nem a rejeitar da sua consciência (sem moralizar a emoção à nascença), analisou-se, refletiu, compreendeu o que a mesma significava e integrou/metabolizou esse momento. Então canaliza os seus esforços para superar o fosso inicial e, anos mais tarde, torna-se um multimilionário filantropo.


Em suma, se a perspetiva fragilista nos torna escravos das emoções, o estoicismo pode, inadvertidamente, fazer-nos ficar escravos duma racionalidade desconectada do aparelho afetivo e simbólico interior. Proponho alternativamente que, tal como Carl Jung, devemos buscar um processo de religio, ou seja, uma verdadeira e profunda conexão (religação) com o nosso mundo interno, ao mesmo tempo que nos conectamos ao mundo externo. No fundo, Jung propõe que integremos mesmo os aspetos mais obscuros da nossa psique, em vez de nos entregarmos a eles ou de os tentarmos eliminar. Termino com uma bela imagem presente na Ilíada que, para mim, representa exatamente isto: Chegando Heitor a casa após uma batalha, o seu filho começa a chorar nos braços da ama ao ver aquela figura intimidante dum guerreiro encouraçado, que não reconhecera como sendo o seu pai. Heitor e a mulher riem (algo que papás helicóptero nunca fariam), percebendo o que estava a acontecer. Ele retira o seu elmo e pega no seu filho, apaziguando-o. Se por um lado devemos desenvolver a capacidade de lutar na dura arena da vida, desenvolvendo a capacidade de agir determinadamente de forma produtiva, por outro é essencial que saibamos acolher os gritos e choros do nosso inconsciente, que se traduzem também na capacidade de criar laços com as outras pessoas e, assim sim, nos humanizando de forma mais completa.




Autor: João Maia

Psicólogo Clínico e da Saúde

Especialista em Psicologia do Desporto

Analista Junguiano

Docente na Academia Internacional de Psicologia Analítica

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