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O paradoxo da autoconfiança: um gigante com pés de barro


"A autoconfiança deve ser um subproduto da aquisição, calibração, aprofundamento e expansão de competências reais, caso contrário, o mais provável é que se desenvolvam delírios, que esbarrarão contra a firmeza impiedosa da realidade."

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João Maia - Psicólogo Clínico 12/02/24



Na literatura científica psicológica, o interesse pela autoconfiança espelha a narrativa de muitos desportistas que publicitam este estado/atributo como um ingrediente essencial para atingir os resultados de desempenho desejados. Muitas vezes, a autoconfiança parece ser promovida como uma espécie de chave mágica para desbloquear tais resultados. Atrevo-me a dizer que tal conceito traz grandes malefícios devido ao empobrecimento que tal simplificação extrema veicula na representação do que constitui o alto rendimento. Mesmo na sua definição (“a capacidade percecionada para atingir um determinado nível de desempenho”) a autoconfiança parece ser essencialmente um marcador ou barómetro interno da capacidade real e efetiva. Mas o mapa, não é o território, mas sim um modelo representativo, que pode ser mais ou menos preciso. Por isso, não deve ser algo que se deva procurar, pelo menos não diretamente, nem ser forçado “a ferros”. Ele deve ser um subproduto da aquisição, calibração, aprofundamento e expansão de competências reais. Caso contrário, o mais provável é que se desenvolvam delírios, que esbarrarão contra a firmeza impiedosa da realidade. Imaginemos o pugilista Mike Tyson, no seu auge, e ponham-no a defrontar qualquer peso-pesado amador. Por mais autoconfiante que o adversário fosse, seria obliterado! A autoconfiança não deve ser uma pílula mágica, mas sim um fruto duma densa árvore.


Por outro lado, por exemplo, dentro dos desportos de combate é frequente ouvirmos relatos de atletas que referem uma certa ansiedade antecipatória (ou em linguagem coloquial, o “nervoso miudinho”) antes de entrarem no ringue. Contudo, mal começam a lutar, a sua ansiedade desvanece-se e a competência que desenvolveram com todo o seu sangue, suor e lágrimas ao longo de anos faz com que um sentimento de familiaridade e competência se combine com uma concentração marcada e aguçada, quase que extinguindo qualquer insegurança. E porque digo “quase”? No fundo, o sentimento de segurança (competência) e de ansiedade (incompetência) conseguem conjugar-se em tandem, numa sinergia ótima que muitas vezes dá origem à tão falada experiência de flow. Quando em flow, a pessoa atinge um estado alterado de consciência caracterizado por uma sensação de imersão total na tarefa/atividade, onde o tempo se parece diluir, numa experiência de êxtase, emergente dum desempenho extremamente competente, no seu melhor. Numa frase, tudo parece fluir na perfeição! E, por definição, este estado de flow só pode ser atingido quando a pessoa faz frente a um cenário de alta dificuldade, mas para o qual está munido de “ferramentas” (competências) para lidar com o mesmo, sendo as suas capacidades também altas. Contudo, a tensão que a dificuldade da tarefa traz é tal que obriga a que a pessoa vá para além das altas capacidades que possui atualmente, ativando-se “em direto” recursos internos extra que a fazem (usando uma analogia dos videojogos) “subir de nível”.   Durante a minha infância assisti a um exemplo abstrato deste processo através da personagem Son Goku dos desenhos animados Dragon Ball, que tão intensamente capturou a atenção de milhares de outras crianças da minha geração. Apesar de quase conseguir derrotar o tirano Freeza, Son Goku é incapaz de concluir a luta, levantando-se o seu inimigo uma e outra vez, inclusivamente matando o seu amigo Krillin. Perante este evento extremo, Son Goku transforma-se em “Super Guerreiro”, trazendo à tona recursos psicológicos e físicos nunca antes explorados, que lhe permitiram então superar o desafio e finalizar Freeza. De referir que esta transformação de Goku é na verdade um estado (tal como o flow), que só pode ser ativado perante um stressor circunstancial. Inversamente, se houver uma total ausência de stressores, a pessoa pode inclusivamente sentir-se entediada.

 

Ora, mas então a literatura científica não indica que a autoconfiança é um preditor significativo da experiência de flow? Sim, é verdade! Contudo, como dizia Yogi Berra “Em teoria, não há diferença entre teoria e prática; na prática, há.” A conclusão que devemos derivar disto não é que há que aumentar a autoconfiança em si. Isso é seria um objetivo demasiado abstrato, não exequível, que na prática não tem raízes no chão, deixando a pessoa ainda mais confusa nas nuvens. Nós psicólogos, não podemos promover tal ideia, senão não passamos de leprechauns marotos a prometerem um pote de ouro desde que se alcance o final do arco-íris. Qualquer pessoa é capaz de pensar em exemplos onde a autoconfiança se torna precisamente aquilo que “corta as pernas” - ou as asas, no caso do mitológico Ícaro - à pessoa. Assisti há pouco tempo ao combate de boxe entre Tyson Fury e Francis Ngannou. O primeiro, peso-pesado altamente solidificado no trono dos maiores pugilistas da história, terá aparentemente subestimado o seu oponente camaronês, cuja estreia no boxe profissional fora exatamente esta. Apesar de ser um incrível atleta de MMA com “pólvora” nas mãos, a verdade é que o ringue de boxe é um universo diferente, com exigências particulares. Na sua preparação, Ngannou investiu em aprender humildemente com os melhores. Este foi um claro exemplo onde o underdog, que sob a pressão de ser a pessoa encurralada, com menos experiência e menos qualificações, é obrigado a ativar recursos internos e a levar a cabo uma preparação excecional, pois sabe que se não o fizer, corre sérios riscos. Já diziam os romanos: Si vis pacem, para bellum (se queres paz, prepara-te para a guerra). Por outro lado, o favorito, com toda a sua autoconfiança, muitas vezes “adormece sob os louros”, desativando os seus recursos e negligenciando a sua preparação. Apesar de Ngannou ter perdido oficialmente a luta, teve uma prestação incrível, lutando taco a taco e “levando ao tapete” Fury, lenda viva e ativa do boxe. Inclusivamente, a vitória de Fury foi extremamente polémica, sendo consensual entre os connaissures de boxe que a vitória deveria ter ido para Francis.


Muitas vezes, paira a ideia de que o psicólogo que trabalha junto dos chamados high performers (sejam eles atletas, artistas, etc.) é um vendedor de sonhos, um ilusionista, ou um tipo que dá umas palmadinhas nas costas ou dá palestras motivacionais inflamadas, de olhos arregalados ao paciente. E frequentemente esta ideia gera (e bem!) uma aversão a tal profissão, pois há um fedor podre a charlatanice. A missão dum verdadeiro psicólogo não deve ser essa. O profissional que mereça o seu salarium, deve promover um contacto com a realidade, principalmente quando o que a pessoa mais precisa é de sonhar alto. O psicólogo deve ser para o seu paciente um catalisador de crescimento sólido e assente no desenvolvimento da capacidade da pessoa se ligar aos seus processos psicossomáticos internos, a par da capacidade de agir concretamente no mundo, promovendo assim a sua individuação. Podemos dizer, por exemplo, que o apurar da capacidade de introspeção, ao abrir as portas para a integração de dimensões internas que estavam fora do campo da consciência, enriquece e imbui de sentido a vida do indivíduo, permitindo-lhe agir de forma mais significativa na realidade externa. Termino, dando um exemplo simples que brota do que discutimos acima: se Fury fosse acompanhado por alguém capaz de identificar, em conjunto consigo, que estava a decorrer em si aquele processo interno, no qual se encaminhava para incorporar o papel de Golias, poderia eventualmente ter evitado manchar o seu legado no confronto contra aquele David.

 

FIM





Autor: João Maia

Psicólogo Clínico e da Saúde

Especialista em Psicologia da Família

Especialista em Psicologia do Desporto



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