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Emagrecer com saúde psicológica? Infelizmente, nem sempre…




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Emagrecer significa reduzir a massa gorda, considerando parâmetros de saúde como o bem-estar psicológico, económico e familiar. O peso por si só não define a saúde de uma pessoa

Milene Castro Silva - Nutrição em Prosa 08/07/23


Nem sempre emagrecer é sinal de saúde psicológica. E infelizmente, nem sempre emagrecer é sinónimo de acompanhamento por profissionais de saúde. Talvez devido ao acréscimo de informação sobre alimentação saudável que por vezes poderão ser mal interpretadas, e não menos importante, algumas informações falsas, e claro, a propagação de dietas de celebridades ou correntes em redes sociais e bloques. Dietas “low carb” que significa “pobre em hidratos de Carbono”, dietas do pH sanguíneo, dietas do paleolítico, sem glúten, dieta cetogênica, e outras tantas, que por sinal, todas sem evidência científica robusta que suportam soluções milagrosas de emagrecimento. Existem autores que já designam a este conjunto de dietas uma perigosa associação a um pensamento geral: “mentalidade de dieta”. Carateriza-se por controlar a alimentação e o peso que por sinal poderá aproximar o indivíduo de transtornos alimentares. “Passar fome”, restringir alimentos, jejuar, pesar comida, contar quilocalorias são algumas das características desta mentalidade.


Gostaria, antes de avançarmos para os impactos psicológicos deste tipo de alimentação “low carb” de deixar bem claro dois pontos que acho essenciais para uma melhor compreensão deste tema. Primeiro, a obesidade e excesso de peso têm várias origens, tais como, predisposição genética, fatores socioeconómicos, alterações metabólicas, comportamentais (sedentarismo, alimentação) e doenças (depressão, doenças hormonais). Deste modo se deseja emagrecer porque não compreender um pouco da origem do excesso de peso e depois atuar? Será mesmo que uma dieta qualquer ajudará no real problema? Será que uma pessoa com excesso de peso deverá ser julgada por sedentarismo e por comer imenso? Por vezes são outros fatores que já citei anteriormente que associados, despoletam o peso excessivo. Segundo, emagrecer não deveria ter como principal objetivo um peso que é algo que não controlamos. O peso é um cruzamento de várias gerações de família. Fixar uma medida de peso mensal ou semanal de emagrecimento pode gerar frustração, sentimento de culpa, ansiedade e baixa autoestima.


Emagrecer significa reduzir a massa gorda, considerando parâmetros de saúde como o bem-estar psicológico, económico e familiar. O peso por si só não define a saúde de uma pessoa. Quando este vem associado a outros fatores, tais como, diabetes, tensão arterial elevada, colesterol, depressão, anorexia, bulimia, ou outra doença, então podemos parar e refletir sobre saúde. Existem pacientes que atendo que nem sempre procedo ao acto de pesar, nem sempre os meço, porque emagrecer não tem de vir associado a um número. Atendi em tempos um adolescente que na primeira consulta vinha acompanhado com a sua avó. Tinha uma obesidade que dava para observar a olho nu, e estava tão nervoso que batia sem se aperceber com a sua perna na mesa de tal modo que abanava e fazia um certo barulho. O nervosismo foi se dissipando enquanto falávamos e divertíamo-nos com um jogo do qual me ajudou a compreender o que mais gostava de comer. No momento que lhe perguntei se queria pesar-se (pois estava no seu direito de não querer) notou-se um alívio na sua expressão facial. Na verdade, tanto eu como ele, não precisávamos desse número para o emagrecimento.

Espero que estes dois pontos estejam claros e agora avançaremos para as implicações psicológicas das dietas restritas. Para tal, vou relatar outra experiência clínica que já tem mais de oito anos, mas que ainda é atual. Houve também em tempos uma mulher que atendi que após a menopausa aumentou 10 quilos. Iniciou por sua iniciativa um desporto e emagreceu 5 quilos e estagnou. Procurou ajuda na área da nutrição para emagrecer os restantes 5 quilos. A mulher retirou por iniciativa própria: o arroz, a massa, o pão e as batatas, ou seja, o grupo dos hidratos de Carbono. Expliquei a sua função, o porquê de não estar a emagrecer e a importância de os introduzir para o emagrecimento (e saúde em geral). Na segunda consulta percebi que não tinha consumido esse grupo alimentar e a mulher muito convincente disse que não ia comer hidratos que pelas suas leituras a partir das cinco horas da tarde não se devia consumir esses alimentos. Eu já tinha argumentado tudo e mais um par de botas, só me restou dizer que já não a podia ajudar mais, que o tratamento passava por ingerir esses alimentos, e que a nossa terapia terminava ali! Para minha surpresa, depois desse meu dito, talvez acordasse de algo, não sei, mas a senhora quis fazer uma tentativa. Despedimo-nos e após 4 semanas ela volta e após a introdução de hidratos de carbono o emagrecimento aconteceu.

Este é outro perigo das supostas restrições! Criam-se ciclos viciosos de pensamento sobre "alimentos vilões", dividindo-os entre "alimentos que engordam” versus “alimentos que emagrecem” ao invés de focar na funcionalidade de cada um para a saúde.

Qual a função dos hidratos de carbono? Fornecer energia ao corpo para as diferentes atividades diárias (respirar, andar, batimento cardíaco, digestão, entre outras). É o principal nutriente do cérebro e a sua restrição severa pode provocar irritabilidade, falta de concentração, dores de cabeça, apatia e insónia. De acordo com a Associação Americana de Psiquiatria a prática de alternativas desequilibradas para o controlo de peso, tais como restrições, omitir refeições, jejum prolongado, substituir refeições por batidos, tomar suplementos para emagrecer já caracteriza um transtorno alimentar. (1)


Neste caso como a restrição era recente ainda aconteceu o emagrecimento. Caso fosse realizado durante alguns meses e até mesmo anos, o resultado final poderia não ser o mesmo. Isto deve-se ao facto de o corpo reagir de uma forma adaptativa numa “poupança de energia” devido à falta de nutrientes e no início embora se emagreça tende a estagnar e promover efeito ioiô. Dietas restritas e desequilibradas não induzem a aprendizagem de comportamentos alimentares saudáveis deste modo, como manter o peso emagrecido? O impacto das dietas desequilibradas na saúde mental tem sido alvo de estudo. A literatura científica demonstra que a restrição de energia através dos alimentos quando associado a outros fatores como ansiedade ou baixa autoestima pode desencadear aumento da fome, angustia, culpa, obsessão por comida e perda de controlo alimentar. (2) Existe uma forte relação entre dietas restritas e mecanismos de compensação causado pelo sofrimento dessa mesma restrição. O insucesso na gestão de peso a longo prazo, somado à frustração recorrente das múltiplas tentativas malsucedidas para o conseguir podem conduzir ao desenvolvimento de processos cognitivos de descrença (por interiorização do insucesso) e, consequentemente, a atitudes de ceticismo e passividade. (2,3,4)


As múltiplas dietas de emagrecimento que prometem um emagrecimento rápido não tem em conta a individualidade perante a família, hábitos culturais e poder económico. É de realçar que estão intimamente conectadas ao atual conceito sociocultural de beleza e estética. Melhorar hábitos alimentares saudáveis, educação alimentar, saber escolher alimentos, saber a quantidade que necessita para as suas necessidades individuais, transpor na mesa a culinária subjacente à sua família, ao seu poder económico, só oferece uma boa relação com a comida e com o seu corpo. Emagrecer é um tratamento complexo, dinâmico e um verdadeiro desafio para quem está no processo. Poderia continuar a escrever e relatar outros tantos casos clínicos, mas despeço-me com um pequeno e grande conselho: emagreça com saúde.



Referências bibliográfica:

(1) Costa, Ana Brito, “As dietas da Moda: impactos Clínicos, Pela sua Sáude – Ciência Alimentar, Fundação Francisco Manuel dos Santos

(2) Mansoor, N, Vinknes,K.J., Vi~eierod, M.B., Retterstol, k. “Effects of low-fat diets on body weight and cardiovascular risk factos: a meta-analysis of randomised controlled trials” British Journal os Nutrition, vol. 115, 2016

(3) Lima, K.v.g., Bion”Valor nutricional de dietas veiculadas em revistas não científicas”, Revista Brasileira em Promoção de Saúde

(4) Jorge,R.Santos, I., Carraça, E. V. et al., “Preditores comportamentais e psicossociais da perda e manutenção do peso perdido a longo prazo: Uma revisão conceptual de revisões “, Acta Portuguesa de Nutrição.



Autora: Milene Castro Silva

Nutricionista Cédula nº 1828N

Autora de Livros dedicados à nutrição

Graduada pela Universidade Nova de Lisboa em Escrita

Colunista Jung.Ink

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